Estúdios.

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Sobre Estúdios e a Organização Social

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O surgimento dos estúdios de gravação, como visto num artigo anterior, trouxe uma nova forma de expressão artística diferente da música como originalmente concebida, desde seus preceitos mais básicos.

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Estúdios
Orquestra de Câmara de Nova Iorque e audiência.

Mas esta revolução, assim como a ascensão dos estúdios e da música popular que com ele surgiu, foi na verdade o reflexo de um padrão de organização social que viria a se mostrar típico das artes modernas do século 20.

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Modelo de organização da orquestra.

Como levanta Brian Eno em uma palestra realizada no Yota Space Festival em São Petesburgo, na Rússia, quando analisamos o modelo de organização de uma orquestra, notamos que há uma hierarquia muito bem definida. No topo encontra-se o “gênio”, ou seja, o compositor.

Abaixo, vêm o regente ou maestro da orquestra, o líder da orquestra, os principais ou solistas de cada sessão, os sub-principais, os demais músicos, e no fim o público (audiência) que está assistindo o concerto, na base da pirâmide.

Em uma escala de poder, o compositor está sempre no topo, enquanto o público não possui poder algum sobre a orquestra. A maior concentração de inspiração se encontra também no compositor, no topo da pirâmide, emanado em direção ao menor grau, localizado no público.

O fluxo de informações sempre segue do topo da pirâmide para a base, e nunca no sentido inverso, o que significa que o público não contribui com a performance musical da orquestra (embora compositores como Philip Glass, Steve Reich e John Cage, mais trabalhos de John Cage aqui,   já tenham trabalhado para mudar este paradigma).

 

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Modelos de organização hierárquica semelhantes.

 

Percebemos que, em primeiro lugar, este tipo de organização reflete a existência de vários graus de responsabilidade.

Em segundo lugar, ela cria focos e pontos de vista – Em primeiro plano estarão as intenções do compositor, a interpretação do regente, e o desempenho dos solistas, enquanto a execução dos músicos de base é passível de ser percebida como uma espécie de fenômeno de segundo plano ou de baixa prioridade.

Em terceiro lugar, este sistema pressupõe a utilização de músicos treinados. Um músico treinado é aquele que, no mínimo, produzirá um som previsível a partir de uma instrução específica. Seu treinamento o ensina a ser capaz de operar precisamente como todos os outros membros do seu nível ou, em outras palavras, elimina uma parte de sua própria variabilidade natural e, assim, aumenta sua confiabilidade ou previsibilidade.

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Esta estrutura operacional da orquestra se repete também em outras instituições da sociedade, como a Igreja e o Exército, e sempre se destaca por delimitar uma barreira entre a base da pirâmide e o restante do corpo hierárquico.

No caso da igreja, no topo da pirâmide se encontra o Papa ou líder religioso,

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e na base a congregação, que segue os cultos mas não possui influência direta no sistema. No caso do exército, no topo está o líder político do país e na base as “vítimas” ou o inimigo a ser alvejado.

 

O produtor musical Quincy Jones trabalhando.
O produtor musical Quincy Jones trabalhando.

Com o surgimento dos estúdios de gravação, o modelo de organização da orquestra se tornou obsoleto. A diferença entre a música erudita e a música popular (no sentido de denotar aquela que é gravada em estúdios) se mostra para Eno como uma questão de diferentes formas de organização social e práticas performáticas, e não de diferenças no valor estético.

Enquanto na orquestra, somente um gênio (o compositor) tomava parte no processo de produção musical, os estúdios fizeram com que muitos gênios passassem a ser integrados com uma finalidade em comum, cada um em sua diferente área: O produtor musical, o compositor, o arranjador, o engenheiro de áudio, o designer de softwares de gravação, et cetera. Em outras palavras, as barreiras se extinguiram.

 

Estes gênios não são dispostos de forma hierárquica, mas interagem, trocam idéias. A informação flui de maneira igualitária. Não há uma única pessoa em destaque, mas sim uma cena como um todo.

Esta é uma forma de organização social característica da arte no século 20, mas que também se mostra cada vez mais presente na sociedade como um todo.

Brian Eno utiliza o termo “scenius”, ou cênio, para denotar este gênio coletivo incorporado em uma cena ao invés de genes.

Além da organização estrutural dos estúdios de gravação, podemos destacar os cênios da Bay Area Thrash Metal ou a Canterbury Scene, enquanto um dos exemplos mais claros fora da música talvez seja aquele nascido no Vale do Silício. Um cênio denota a inteligência e a intuição de uma cena cultural inteira.

Não é simplesmente a sabedoria de uma multidão, e sim a colaboração de muitas mentes individuais criando uma inteligência maior e mais dispersa, uma cultura de criatividade mais eficiente do que a organização hierárquica.

 

Organização social de um cênio em uma situação de gravação em estúdio.
Organização social de um cênio em uma situação de gravação em estúdio.

 

Nós vivemos em um mundo que se torna cada vez mais complexo, mas no qual também surgirão cada vez mais pessoas capazes de resolver problemas.

Os estúdios de gravação e a crescente tecnologia musical são alguns de muitos exemplos que vêm para nos lembrar de que a colaboração, o cênio, é o que trará novas soluções para os problemas do mundo.

Afinal, a habilidade de trabalho conjunto é justamente o que faz do ser humano a espécie mais bem-sucedida da história de nosso planeta.

 

– Matheus Manente é músico multi-instrumentista, compositor e trabalha com gravação de áudio desde 2008. Mais informações sobre seu trabalho em http://www.matheusmanente.com/

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Matheus Manente

Matheus Manente

Eu sou um músico e compositor brasileiro. Possuo experiência com vários instrumentos musicais (incluindo guitarras de alcance extendido, baixo, bateria, monotron, teclado, ukelele e kalimba). Sou colunista em alguns websites, trabalho com gravação, produção, mixagem e masterização, e possuo experiências com programação e computação musical.Eu já trabalhei como músico freelancer, tocando ao vivo em diversas ocasiões. Também participei de diversos álbums, tendo a oportunidade de atuar ao lado de músicos de diversos estilos e países diferentes. Desenvolvi trilhas sonoras e produzi/gravei várias bandas pequenas em meu home studio, trabalhando com estilos musicais muito diversos e interessantes (Rock, Pop, Folk, Erudita, Eletrônica, etc). Também lecionei aulas práticas e teóricas durante 6 anos em escolas de música da região do ABC (atividade atualmente suspensa).Sou graduado em ciências atmosféricas pela Universidade de São Paulo (USP) e ainda atuo como meteorologista. Desta maneira tive contato com física e matemática e tento também aplicar este conhecimento ao meu trabalho como músico.