Música que deixou de ser música

A música

A música que deixou de ser música

Há muito tempo atrás, na época anterior ao início da gravação de áudio, formas de expressão artística como o teatro e a música só podiam ser apreciadas com o auxilio de um time de artistas – músicos ou atores – interpretando o trabalho artístico ao vivo para uma platéia de apreciadores da arte.

 

 

Em 1867, a primeira máquina capaz de exibir imagens animadas foi patenteada por William Lincoln e se chamava “A Roda da Vida”, ou “Zoopraxiscópio“.

Mas não foi até 1895, o ano em que Louis Lumiere foi creditado pela invenção da câmera de vídeo (o Cinematographe), que o teatro pôde passar a ser gravado e reassistido, de maneira a atingir um público imensamente maior do que uma peça teatral executada ao vivo era capaz de comportar.

 

A música
Figura 1 – Zoopraxiscópio

 

A música
Figura 2 – Cinematographe

 

 

 

Naquele ano, o mundo das artes passou por uma revolução. Logo, a invenção se popularizou e as pessoas notaram que estava surgindo uma nova forma de expressão artística.

A sétima arte, como descrita por Ricciotto Canudo, foi batizada de CINEMA, e não era mais considerada uma simples variação gravada de uma peça teatral, e sim um braço artístico inteiramente novo.

O mesmo processo de gravação e distribuição também aconteceu com outra arte, a música. No momento em que os dispositivos de gravação e reprodução de áudio surgiram, a música passou por uma revolução.

Ela deixou de ser música, assim como o cinema deixou de ser teatro. O compositor e artista visual Brian Eno defende o ponto de vista de que a música gravada é uma forma de arte completamente diferente da música executada ao vivo – E diz ainda que, na verdade, a música gravada em estúdio se assemelha muito mais à pintura do que à música como foi originalmente concebida.

Primariamente composta por nuances, detalhes e erros provenientes da imperfeição humana e da interpretação artística do músico, a execução ao vivo de uma determinada composição é uma experiência singular, impossível de ser duplicada.

Já a porcentagem majoritária de gravações de estúdio, atualmente, é realizada em DAW’s de vários canais, com a intenção rígida de ser duplicável.

A música
Figura 3 – Músico sendo gravado no estúdio Armoury.

 

Em cada etapa da gravação, o produtor irá registrar o trabalho de um músico ou instrumento diferente, adicionando cada vez mais instrumentos e camadas sonoras, alterando-as e manipulando-as até atingir o resultado final: A gravação de uma música.

O processo é exatamente análogo ao de uma pintura – Onde o pintor irá adicionar camada após camada de tinta até atingir o resultado final de sua arte.

O quadro, assim como a música gravada, nunca estará sujeito à diferentes experiências de execução.

O estúdio, ao permitir a manipulação, moldagem e modelagem da música, arrevesou seus princípios mais básicos e a transformou em uma espécie de arte plástica.

O estúdio criou uma música que, desde o seu princípio, já havia deixado de ser música.

Isto não é, no entanto, uma associação depreciativa ou pejorativa, e sim uma constatação primordial sobre a importância do estúdio de gravação de som no meio das artes: Temos em nossas mãos um novo formato de arte, tão abrangente e importante na era tecnológica atual que deve ser justamente valorizado e aproveitado por todos, mesmo se confundindo com a própria música.

 

– Matheus Manente é músico multi-instrumentista, compositor e trabalha com gravação de áudio desde 2008. Mais informações sobre seu trabalho em http://www.matheusmanente.com/



Matheus Manente

Matheus Manente

Eu sou um músico e compositor brasileiro. Possuo experiência com vários instrumentos musicais (incluindo guitarras de alcance extendido, baixo, bateria, monotron, teclado, ukelele e kalimba). Sou colunista em alguns websites, trabalho com gravação, produção, mixagem e masterização, e possuo experiências com programação e computação musical.Eu já trabalhei como músico freelancer, tocando ao vivo em diversas ocasiões. Também participei de diversos álbums, tendo a oportunidade de atuar ao lado de músicos de diversos estilos e países diferentes. Desenvolvi trilhas sonoras e produzi/gravei várias bandas pequenas em meu home studio, trabalhando com estilos musicais muito diversos e interessantes (Rock, Pop, Folk, Erudita, Eletrônica, etc). Também lecionei aulas práticas e teóricas durante 6 anos em escolas de música da região do ABC (atividade atualmente suspensa).Sou graduado em ciências atmosféricas pela Universidade de São Paulo (USP) e ainda atuo como meteorologista. Desta maneira tive contato com física e matemática e tento também aplicar este conhecimento ao meu trabalho como músico.